terça-feira, 1 de maio de 2012

Nas veias do Palácio corre o sangue de um anônimo importante

Ao falarmos de servidores do Tribunal de Justiça vem à mente aqueles que trabalham em cartório como o escrevente, o oficial de justiça e esquecemos que não existem somente processos no TJSP. A instituição tem muitos outros profissionais anônimos que trabalham em atividades
que não são as jurídicas e que ninguém os vê, como o pessoal do RH, limpeza, manutenção, elétrica, hidráulica, ascensoristas, copa, motoristas, fiscalização, informática, administração, dentre outros, que também trabalham para dar vida ao maior Tribunal do País e que os milhões de processos têm início, meio e fim  também por conta deles.
        A água que corre nas veias do Palácio da Justiça tem a ajuda do seu Jorge, ou Jorge Nilton Cavalcanti, carinhosamente chamado de seu Perninha, por ser ágil, já que anda com muito rapidez. É dele que falaremos hoje.  Ele é responsável pela parte hidráulica do prédio, desde a lavagem de caixa d’água. “Aqui ganho meu pão abençoado. Tô num serviço que gosto. Amo que faço”, declara.
        No jardim de sua vida já se somam mais de 60 primaveras, todas regadas com muita alegria de viver. É madrugada ainda quando Jorge vai à pracinha para conversar com a seringueira. “'Benze a' Deus filha, você está crescendo, você está tão bonita!”, diz à árvore que ele acompanha o crescimento há vários anos.
        Seu Jorge fala que adora animais e também conversa com eles, até uma cobra cascavel, de aproximadamente um metro e meio, teve em casa por cerca de dois anos. “Fizeram denúncia e vieram buscar a cobra. Fiquei muito triste. Ela dormia enrolada no meu pescoço, passava a língua em mim. Tenho saudades dela.”
        A rotina de seu Jorge começa bem cedo. Ele acorda às 2h30 para dar remédios à Maria da Ressurreição, sua querida esposa, há várias décadas. Antes de sair de casa, dá o café a Maria, comida aos cachorros e sai de casa, na Zona Leste da capital. Por volta das 4 horas, pega dois ônibus e chega ao tribunal lá pelas cinco.
        Maria teve suas duas pernas amputadas em decorrência de um acidente, em 1982, quando a família viajava de ônibus para o Rio de Janeiro. Sua filha Mayra perdeu dois dedos da mão e seu Jorge tem pinos na perna. “Quando minha esposa se prepara para tomar banho, ela tira suas pernas mecânicas, e eu a ajudo; depois ela as põe novamente e vem andando calmamente... e eu fico olhando para ela. Maria é uma mulher muito forte, uma grande mulher. Ela me deu duas filhas (Mayra e Nadja). Tenho muito amor à minha mulher. Eu agradeço que ela está viva. Eu a amo, amo minha família. Tenho um genro (Raimundo Fagner) que é um filho para mim, tenho um neto (Kauã) maravilhoso e minha filha está grávida novamente. Não há dinheiro no mundo que pague isso!”, afirma enquanto lágrimas rolam e se perdem em sua barba grisalha.
        Seu Jorge conta que financiou cerca de R$ 30 mil para comprar pernas para Maria porque queria vê-la andando. “Fiz em quatro anos e já paguei quatro. Hoje nós vamos até em forró”, conta feliz.
        Em sua vida tão atribulada, ainda arranja tempo para visitar o hospital de câncer infantil e um asilo em Ribeirão Pires. Seu Jorge ressalta que é muito feliz. No Palácio da Justiça, por onde passa conhece alguém. Ele é muito querido por todos.
        Seu Jorge fala que tem que cuidar muito bem dos animais, se ele encontra cachorro doente na rua ele cuida. “Quando você agrada um cachorro, ele não fala, mas tem um focinho que te beija em agradecimento. Ele sabe ainda de longe se você tem medo dele ou não.”
        Ele deixa mensagens: “coração de gente é terra que ninguém vê, quem vê cara não vê coração. Não adianta fazer juras de amor e não falar  com o coração. O que vale mesmo é o amor, o amor é tudo”.
        Ele diz ter muita fé em Deus e que nenhuma folha cai da árvore quando Ele não quer. “O amor, a simplicidade e a humildade não têm preço. Peço para Deus que me dê muita saúde para continuar ajudando o próximo.”  





     Fonte:TJSP

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